Caras: quando o afeto esbarra no cansaço

Na música “Caras”, de Don Policarpo, o que começa com humor rapidamente revela algo mais profundo. A faixa brinca com expressões do cotidiano, “cara fechada, cara irritada, cara de paisagem, cara de bunda”, mas por trás dessa leveza existe um retrato muito real de relações que vão se desgastando aos poucos.

Aqui, o foco não está na ausência de sentimento. Pelo contrário. A música fala justamente sobre gostar de alguém e, ainda assim, se ver exausto diante de comportamentos repetitivos que afastam, silenciam e confundem. Pequenas atitudes, olhares atravessados, reações automáticas. Tudo isso vai acumulando e criando um ruído que interfere no que antes era simples.

Existe algo de muito humano nessa narrativa. Quem nunca se pegou tentando entender o humor do outro, decifrando expressões, medindo palavras para evitar um clima ruim. Aos poucos, o que era espontâneo vira esforço. E o esforço constante cansa. A leveza se perde, e com ela, os rumos da relação começam a se embaralhar.

“Caras” transforma esse cenário em uma espécie de desabafo bem humorado, mas honesto. É como se dissesse que o problema nem sempre está nas grandes brigas, mas nas pequenas tensões do dia a dia que, quando ignoradas, crescem. E crescem justamente onde existe afeto.

No fim, a música deixa uma sensação agridoce. Entre risadas e identificação, ela aponta para algo importante. Relações precisam de presença, de escuta e, principalmente, de disposição para ajustar o que está desalinhado. Caso contrário, o que fica são apenas as caras. E os caminhos que, sem perceber, acabam se perdendo.

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Sobre Don Policarpo

Multiartista, geógrafo, escritor, poeta e compositor. Amplamente reconhecido como educador, acumulando mais de duas décadas de forte atuação no cenário cultural paulista e do litoral do estado de São Paulo.
DON POLICARPO
DALVILSON DONIZETE POLICARPO

Técnico em Meio Ambiente, graduado em Geografia, professor da rede estadual e pós-graduado em História da África e Docência do Ensino Superior, Don Policarpo também dedicou 35 anos de sua trajetória profissional ao Metrô de São Paulo, onde atuou como agente de segurança.

Ao longo de sua carreira, envolveu-se ativamente na luta por melhores condições de trabalho. Sua eloquência e seus posicionamentos o levaram a ser eleito para a direção do sindicato, para a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) e, posteriormente, para a federação da categoria. Também participou da formulação dos Projetos de Lei nº 644/2016, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP), e nº 6.369/2016, na Câmara dos Deputados.

Foi durante esse período, ao reunir documentos e registros em defesa de sua categoria, que encontrou material para sua primeira publicação. Em 2018, aos 55 anos, lançou ** Trajetórias e Caminhos da Segurança Metroviária de São Paulo **, obra que aborda a história da implantação do Metrô no Brasil e a criação de seu corpo de segurança. O livro também ganhou uma edição em francês.

A partir dessa primeira publicação, Don Policarpo ampliou sua trajetória literária, transformando experiências pessoais, reflexões sociais e sua relação com a cultura em novas obras. Sua produção passou a reunir poesia, música, história e questões sociais, expandindo sua atuação como escritor, poeta, cantor, professor, roteirista adaptador e ator.

Entre suas publicações, destaca-se a coleção ** A Magia da Poesia Cantante **, projeto que aproxima literatura e musicalidade e que chegou ao terceiro volume em 2026. Sua trajetória artística também inclui outras obras literárias, participações em saraus, apresentações musicais, projetos culturais e iniciativas voltadas à valorização da arte, da educação e da literatura.

Em setembro de 2026, recebeu o Prêmio Mceys Qualidade Brasil, na categoria Escritor e Poeta, durante a 12ª edição do evento, realizada no Salão Nobre da Câmara Municipal de São Paulo. A homenagem representou o reconhecimento de sua trajetória literária e de sua contribuição para a cultura.

Don segue ampliando sua produção artística, participando de encontros culturais e levando sua poesia a novos públicos, conectando arte, memória, educação e transformação social.

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